O saquinho de arroz

Quando o sol raiava, a gente levantava, tomava uma xícara de café, quando tinha, e íamos pra escola, mesmo com o jejum da manhã, era nossa única opção. Colocávamos nossos cadernos de brochura, e colocávamos no saquinho de arroz ou açúcar, juntamente com um lápis preto, borracha e uma caneta, havia dia que não havia borracha, caneta, e algumas vezes, nem caderno pra ir à escola. O pacote de arroz, era nossa bolsa, e quando se comprava um pacote novo, havia briga em casa, pra ver qual dos irmãos pegaria o saco mais novo, pra ir pra aula. Chegando lá, pelo menos metade das crianças do primário levava o famoso saquinho de arroz como meio de transportar e proteger seus materiais, alguns tinham bolsas as pastas de plástico polionda, e raramente, alguém tinha uma mochila nas costas, coisa que era relegada aos filhos de “ricos”.
Lembro-me que no “recreio”, hoje chamado de intervalo, serviam uma sopa feita de pó e água, não sei o que tinha naquilo, às vezes, ficavam empelotadas, tornando o lanche algo quase intragável, mas a fome sempre falava mais alto, e aquilo acabava virando rotina. O melhor dia da semana era a sexta-feira, quando serviam pão e o temido leite de soja, que muitos adoravam, e outros odiavam, mas não tínhamos escolha, era aquilo ou a fome até chegar em casa, e nem sempre quando chegávamos em casa, tinha o que comer.
Quando chegava em casa, além do almoço, não tinha tv pra assistir, e nossa diversão era fazer brinquedos com madeira, e ler gibis, que tinham às dezenas, dos mais diversos personagens.
Mas se eu passasse tudo isso nos dias de hoje, será que eu teria tido o mesmo destino que tive? Se eu tivesse recebido tudo mastigado, uniforme dado pela prefeitura, caderno, bolsa, lápis, borracha, almoço decente, proteção de leis que nos impediam de trabalhar, conselho tutelar e uma infinidade de facilitadores que impedem as crianças de passarem dificuldades, eu teria o mesmo sucesso que tenho hoje? Comecei a trabalhar aos 9 anos, desenvolvi boa leitura e escrita justamente porque não tinha tv em casa, desenvolvi criatividade porque eu não tinha os brinquedos prontos, fui obrigado, pelas circunstâncias, a fabricar minhas próprias diversões.
De fato, a proteção do Estado faz muita diferença pra quem passa dificuldade, mas a proteção em demasia desestimula o crescimento, o aprendizado, criando uma geração de pessoas dependentes, sem criatividade, raciocínio lógico pra olhar pra uma peça, e mesmo sem conhecer, deduzir pra que ela serve.
Eu nunca gostei de ter que levar meus cadernos no saquinho de arroz, mas o pacote de arroz, até hoje me faz lembrar das minhas origens, e principalmente, de quem deu a vida pra nos dar o mínimo de conforto

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