O dia em que achei um tesouro (Fato real)

Quando eu tinha apenas 9 anos, morávamos na cidade de Assis, e como não havia trabalho, meu pai foi obrigado a buscar recicláveis nas ruas da cidade pra sustentar a família, mas, com 10 pessoas em uma casa, essa tarefa seria impossível sozinho, logo, a família toda estava engajada nas tarefas de busca, separação, embalagem de todo aquele material.
Embora minha tenra idade não me permitisse, conheci aquela cidade de ponta a ponta, empurrando um carrinho de ferro em busca de “papelão” pra vender, que dava pouca coisa, mas era a única solução em tempos de dificuldade.
De manhã, íamos pra escola, que ficava a dois quilômetros de casa, quase sempre a pé, voltávamos pra casa, e frequentemente, não tinha o que almoçar, mas a valentia da minha mãe sempre dava um jeito de disfarçar a barriga vazia.
Mas, como criança, eu não tinha aquilo como difícil, pois desde mais novo, não tinha conforto em casa, como luz elétrica, pois sempre moramos em casas de madeira, o banheiro era sempre uma casinha de maneira no fundo do quintal, popularmente chamada de “privada”, então, nossa moradia em Assis, era confortável, embora tínhamos outras necessidades.
Certa vez, deveria ser umas nove da noite, eu estava voltando pra casa, pela Av Rui Barbosa, quando passei em frente a um prédio, se não me falha a memória, Carolina Buralli, vi uma pilha de papelão, muita coisa boa pra se vender, como ainda estava com o carrinho ainda com menos da metade, aquilo seria suficiente pra enchê-lo e possivelmente sobraria mais coisas, que não daria mais pra levar.
Fui organizando tudo dentro do carrinho, como não era hábito mexer em sacos de lixo, coloquei o papelão primeiro, que encheu o carrinho, ao que percebo alguns sacos de lixo preto, cheio de brinquedos, dos mais diversos, muitos, de verdade, mais do que todos que já tive na vida. Parecia um sonho, fui abrindo os sacos, e cada vez que mexia, apareciam mais e mais brinquedos, me enchendo os olhos de brilho.
Como não cabia no carrinho, retirei alguns recicláveis pra dar espaço a todo aquele brinquedo, que aos meus olhos, era um tesouro de valor inestimável. Fui pra casa, ansioso, pra ver o que mais tinha nos sacos, tamanha era minha expectativa pra ver tudo o que me esperava. Chegando em casa, nem liguei pra nada, apenas pra abrir aqueles “tesouros” que me encheram de alegria. Despejei os sacos no chão, formou-se uma pilha de brinquedos, que outros irmãos também se maravilharam. Não lembro exatamente de tudo, mas deveriam ter uma dúzia de kombis, um gol de plástico, um ferrorama completo, um penico de ágata e outras coisas que não me vêm a memória agora.
Aqueles brinquedos fizeram parte da minha infância em Assis, e nunca sairão da memória, e, com certeza, me trouxe ensinamentos que devemos levar pra vida adulta.
Quando encontramos algo de muito valor, temos que deixar pra trás algumas coisas que tem preço. Embora os recicláveis tivessem um preço, que dariam pra comprar alguma coisa pra comer, aos meus olhos de criança, aqueles brinquedos tinham um valor que nada daquele momento poderia substituir: uma infância que se perdia em trabalhos, escola e sonhos.

Comentários no Facebook

%d blogueiros gostam disto: