Cine São Manoel

Bom dia aos queridos amigos que me leem. Já faz anos que saí dessa inesquecível cidade, mas não perdi os laços e as boas memórias que ela moldou em meu viver.

Tenho relembrado fatos que aconteceram comigo quando aí vivi, e não poderia deixar de escrever sobre o que o Cine São Manoel representou em minha vida, o Palácio Encantado da Cidade.

Não cheguei conhecer o cine Carlos Gomes, que antecedeu o Cine São Manoel, o qual ficava numa galeria em plena av. Paraguaçu. Quando completei sete anos, minha mãe me “autorizou” ir ao cinema com meus irmãos, e de uma maneira mágica para quem viveu o fim dos anos 50, fui assistir a “Marcelino Pão e Vinho”; encantei-me com o filme e a grandeza do cinema, tão grande para mim naquela idade. O Cine São Manoel passou a fazer parte da minha vida.

Tudo era mágico aos nossos inocentes olhos: na fila para comprar ingressos, a escolha dos lugares onde iríamos sentar e a espera da sessão que se iniciava à meia luz; abertura das pesadas cortinas e a projeção dos slides com propaganda do comércio local, ao som de “Summer Place” de Percy Faith. Não sabíamos que estávamos criando lembranças que construiriam nossas personalidades e sentimentos; estávamos vivendo os plenos “Anos Dourados”!

Após os slides, assistíamos a riqueza do Canal 100 em preto e branco, de Herbert Richters, com notícias bem atrasadinhas do Brasil e o que acontecia lá fora no mundo real. Víamos notícias do Rio de Janeiro, da construção de Brasília, e do mundo de uma maneira mágica, e nos encantávamos com as transmissões dos jogos no Maracanã, assistindo Garrincha com seus loucos dribles encantando a torcida desdentada na arquibancada. Também assistíamos Pelé fazendo suas “diabrices” e gols.

Depois os “traillers” dos filmes que viriam, sempre com muito atraso, os mais apressados e que tinha condições, iam à Assis ou cidades vizinhas assistir aos lançamentos.

No cinema havia uma distribuição etária curiosa: na frente, naquilo que hoje chamamos de “turma do gargarejo” ficavam os ariscos meninos, espalhafatosos e sedentos de ruídos. Quando aparecia o pássaro da Condor Filmes anunciando o filme principal, eles se agitavam todos em assobios e vaias, tentando espantar o pássaro… rs.

No meio, as famílias bem comportadas: maridos, esposas, filhos e os solteiros solitários, mas lá atrás, bem no escurinho e discretamente, os casais que se aproveitavam do ambiente para dar seus beijinhos. Não acredito que alguém tenha ousado mais que beijos, mesmo que afoitos, naquele ambiente tão puro.

Nem precisa narrar as vaias e assobios quando a fita arrebentava e nos deixava às escuras, esperando acender as luzes e recomeçar a projeção, tudo era magia! Interessante que, naquela época, o trivial era o que os aficionados hoje chamam de clássicos: “Ben Hur”, “Os Dez Mandamentos”, “O Manto Sagrado” e outros de Cecil B. de Mille.

Também assistíamos John Waine com seus tiros certeiros, sempre vencendo o mal e seu jeito tosco de ser. Para desanuviar, havia Elvis e seus musicais intermináveis; achávamos todos que tudo era normal e até enfastiante, mas não sabíamos que estávamos vivendo a própria História.

A Companhia Pedutti, que tinha a concessão do Cine São Manoel, promovia periodicamente matinês gratuitas aos sábados, de Charles Chaplin e O Gordo e o Magro para a criançada e aprendemos ali o que era cultura genuína; tudo era em preto e branco e encantava fazendo nossa infantil e juvenil imaginação viajar.

Agora um fato que só os meninos desfrutaram: a inesquecível troca de gibis que acontecia nos domingos à tarde em frente ao cinema, antes da sessão das 14 horas. O gibi era uma instituição cultural entre os meninos, e nos reuníamos todos para o negócio da troca. Nunca vi uma menina sequer trocando gibis, elas deviam ler fotonovelas… rs. O Fantasma, Cavaleiro Negro, Búfalo Bill, Hopalang Cassidy, Capitão Marvel, Superman, Flash Gordon e Batman já eram personagens que nos encantavam e nos faziam sonhar.

Narrar todos os fatos que me marcaram pode ser até entedioso, mas tenho certeza que vai atiçar lembranças daqueles que, como eu que estou acima dos 60, e que quando assistiu “Cine Paradiso” de Giuseppe Tornatore, se emocionou com o personagem Totó e a magia do cinema em sua vida; todos nós vivemos Cine Paradiso nesta cidade tão encantadora.

Fica aqui meu agradecimento para quem me leu e viveu esses Anos Dourados que foram tão bem retratados pela escritora Zélia Gattai no seu texto “Homens e Mulheres Maduros”: a geração que viveu o alvorecer da Nova Era e que legou filhos com a mente aberta para o Novo Mundo que se prenuncia.

Ludwig Franchon

Desejo ampliar conhecimentos espirituais e compartilhar o que já adquiri na vivência cristã formando novas amizades.

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