Estação Paraguaçu

Bem, como vocês já devem intuir, vou falar sobre as inesquecíveis viagens de trem para São Paulo, ou para fora daquele mundinho que vivíamos em Paraguaçu.

Dizem os antigos que Paraguaçu, antes de receber esse nome, era Moita Bonita, um pequeno vilarejo que disputava espaço com os bugres; o vilarejo mais antigo e importante era Conceição de Monte Alegre.

Dizem ainda os antigos e mais sabidos que, quando os engenheiros da Estrada de Ferro Sorocabana estavam projetando a construção da estrada, um dia foram almoçar com as autoridades de Conceição de Monte Alegre. Dizem também, que os anfitriões se recusaram pagar a conta das refeições e que os ditos engenheiros, em retaliação, mudaram o projeto, evitando aquela localidade não permissiva e que não aceitava benefícios; o traçado da ferrovia foi mudado para Moita Bonita e a história se consolidou; Conceição de Monte Alegre passou a ser nosso recanto de paz e gastronomia.

Moita Bonita se tornou cidade com a chegada do trem, e se tornou Paraguassu. Depois houve correções ortográficas em seu nome, pois já havia uma índia Paraguaçu no sul de Minas, e nossa amada cidade foi rebatizada de Paraguaçu Paulista, a cidade em que nasci e me formei como homem.

Voltando ao tema inicial, que é a Estrada de Ferro Sorocabana, impossível esquecer o que acontecia naquela cidade que cresceu em torno da estação do trem. Estação! Existem 4 estações no ano, cada uma com sua característica peculiar: Primavera, com suas flores; Verão com sua ardência e paixões; Outono nos remetendo às lembranças e o Inverno que nos faz refletir sobre o que fizemos das nossas vidas. Mas a Estação de trem de Paraguaçu era tudo isso ao mesmo tempo: ela nos embarcava para um mundo que existia lá fora, numa viagem maravilhosa e inesquecível; saíamos de onde vivíamos, para enfrentar o que conhecíamos apenas dos jornais e das ondas do radio; o asfalto e a televisão ainda não haviam chegado para nos ligar aos fatos.

Tudo começava pela compra das passagens; o embarque para a capital era sempre à noitinha, lá pelas 7 da noite. O trem vinha do oeste, espalhafatoso e apitando na chegada. Sua parada não era longa e tínhamos logo que embarcar nos vagões que havíamos escolhidos: segunda classe, luxo ou superluxo, tudo era uma questão financeira, mas eu preferia os vagões de luxo, eram mais confortáveis e sociais.

Acomodávamos em nossos bancos: a mala acima das nossas cabeças no bagageiro e, como sempre tínhamos que levar blusa, ela servia para guardar nossos lugares se nos ausentássemos; não escolhíamos com quem nós iríamos viajar tudo era seguro.

Logo, reuníamos uma turma de amigos e íamos para o vagão-restaurante. Ficávamos bebericando cerveja, jogando conversando fora e palitinhos, sem nos preocupar com nossa bagagem e lugar marcado com o agasalho.

À meia noite em ponto, o chefe do vagão restaurante nos colocava prá fora, encerrando as atividades, e saíamos para caminhar na composição, um tanto alegres e paqueradores. Também nessa hora, a iluminação principal dos vagões era atenuada e só ficando uma luz supérflua e fraca: era para que descansássemos, mas com tantas paradas em cada cidade que passava, ficava difícil dormir; então, saíamos em tournée pelos vagões, pesquisando, paquerando e procurando alguma companhia, que como nós, estivesse viajando sem compromisso. Quando havia alguma sintonia, íamos para aquele espaço que separava os vagões e aí rolava os namoricos, nada mais que isso, pois a fiscalização do trem estava sempre atenta não permitindo abusos.

Se o sono não chegasse antes, ficávamos lá naquela divisão dos vagões, olhando a noite e estrelas, ouvindo o som da máquina ofegante, embalado pelo sacolejar nos trilhos; era tudo magia e encanto, sonhávamos acordados nesta viagem que sabíamos iria terminar, mas que naquele momento era eterno. Várias vezes amanheci, nessa verdadeira balada, vendo o sol nascer entre as colinas e prados; isso marcou minha vida.

Quando nada rolava e íamos dormir nos bancos desconfortáveis do trem, salvo lá no super-luxo ou no pulman, onde a poltrona virava uma verdadeira cama, ajeitávamos a cabeça na blusa usando-a como travesseiro e nos esforçávamos para dormir, no sacolejo do trem que seguia, entre paradas e apitos nas curvas e estações. Dormir era uma tarefa difícil e ingrata: assim que o sono vencia o cansaço, vinha o vendedor de chocolate ou café segurando bules imensos, sugerindo que era para tirar o sono, ou então o fiscal para conferir nossas passagens.

A viagem nos conduzia para fora do nosso mundo maravilhoso que vivíamos em Paraguaçu, e a cada estação, paisagens e paradas, olhos diferentes, particularidades e regiões nas quais acho que pessoas viviam como nós. Essa viagem nos remetia a outro mundo, a outras pessoas e nos amadureciam para a vida.

Amanhecia quando chegávamos a São Paulo e, um tanto extenuados e cansados, ficávamos olhando a paisagem diferente que se apresentava aos nossos olhos: uma cidade grande e interminável que nos assustava. Desembarcávamos na Julio Prestes com nossas bagagens e rumávamos para nossos destinos, torcendo para que o retorno não demorasse, e pudéssemos retornar à cidade querida; a Capital era nosso desafio, mas foi aqui que construí minha vida e família, jamais esquecendo as origens e mantendo acesa a lembrança dos Verdes Campos da Minha Terra.

A viagem de retorno era sempre um prazer indescritível: a compra das passagens, a espera do horário do embarque e o reencontro casual dos amigos que também embarcavam. Com a maior alegria e emoção, vi aquele salão imenso da Estação Julio Prestes tornar-se a Sala São Paulo dos concertos e apresentações musicais; já estive lá e emocionei-me com a suntuosidade do lugar, relembrando os momentos inesquecíveis das viagens.

A volta era sempre mais gostosa e sabíamos que Paraguaçu nos esperava com aquela Paz e Amor das famílias e amigos, com sua Praça e seu Coreto, com o seu Cinema, sua Fonte Luminosa, e com os adoráveis bailinhos nos sábados à noite.

Mais tarde fiquei sabendo que as viagens de trem haviam acabado, e que a Andorinha havia pousado em Paraguaçu para nos trazer à capital, com seus voos terrenos e encurtando uma viagem que no trem durava até 12 horas: e pelo asfalto hoje não passa de 8 horas; nunca vi encanto nessas viagens de ônibus.

Também fiquei sabendo que hoje, se fazem viagens turísticas de Maria Fumaça, entre Paraguaçu e outras localidades; acho que eu só conheci as máquinas a diesel, que chegando à Assis, eram substituídas pelas máquinas movidas à eletricidade. Vi com tristeza que esse trecho eletrificado entre São Paulo e Assis, já não existe mais. Aqui se invertem os valores, desprezando a cultura e favorecendo rodovias, infelizmente. As ferrovias construíram países e integraram povos, basta assistir os filmes de Hollywood.

Isso que escrevi foi planejado há tempos, mas hoje, lendo Mario Quintana com o seu poema sobre trens e viagens, motivei-me e escrevi as doces lembranças que esta cidade tão amada firmou em meu coração. Tenho mais “causos” e lembranças que ainda vou descrever em textos futuros, contando sempre com os maravilhosos comentários que tenho recebido e sugestões para atiçar minha inspiração e memória.

Ludwig Franchon

Desejo ampliar conhecimentos espirituais e compartilhar o que já adquiri na vivência cristã formando novas amizades.

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