Conceição de Monte Alegre

Divagando minhas lembranças sobre os horizontes da minha amada Paraguaçu, inesquecível citar a origem, onde tudo começou: aquele lugar acanhado e querido por todos, que parou no tempo e contemplou o nascimento, crescimento e amadurecimento da sua querida filha Paraguaçu.

Minhas primeiras lembranças de Conceição (vou abreviar) estão enevoadas pelo Tempo e misturadas com outras marcantes e que jamais vou esquecer: meus avós paternos. Explico: meu querido avô Raphael Franchon ia constantemente visitar seus parentes no Distrito de Conceição e, lembro, íamos juntos, sempre aos domingos, no famoso jipe (dispenso “inglesismos”) do meu tio. O percurso era afoito, sem asfalto e vencendo os areões, pouco mais de sete quilômetros, mas uma aventura que até rendia competições automobilísticas na cidade em datas festivas, verdadeira gincana!

Chegando naquele lugar acanhado e com poucas casas de alvenaria, adentrávamos numa típica venda do interior, casa simples de madeira, onde residiam meus tios avós, recém-chegados da França e que mal falavam nossa língua. Eu ficava ali na espreita, tentando decifrar o que eles diziam, mas saboreando a elegância e os modos refinados desses ancestrais do qual me orgulho, tendo seu sobrenome.

Tendo feito esse preâmbulo, agora vou divagar outras lembranças queridas, e que fizeram com que Conceição fosse muito mais que uma canção do Cauby, aliás, bem condizente com aquele vilarejo que, “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”, mas que marcou a vida de todos nós com carinho em nossa formação como cidadãos e amantes da Índia.

Ainda crianças, chegando à época das festas juninas, pegávamos nossas bicicletas e nos arriscávamos nos sete quilômetros de terra e areões para comprar fogos de artifício numa fábrica bem caseira que existia lá: bombinhas, busca-pés, rojões e outras maravilhas pirotécnicas mais. Era uma aventura essa viagem, e sempre íamos em turma de amigos para isso; coisas de meninos!

Sabíamos, também, que o melhor Guaraná e a melhor Soda Limonada eram fabricados lá, na famosa Imaculada Conceição e, dizem, cobiçadas pelos refrigerantes de uma marca famosa da capital para ceder a fórmula, mas a qualidade estava na verdadeira água mineral que a produzia. Quem não se lembra da famosa Sodinha em garrafinhas de vidro? Matava a sede, refrescava e também recuperava as energias.

Mas nossa Conceição, também nos presenteou com um fato marcante e inesquecível na vida de todos: ainda nos anos 60, após o asfaltamento da rodovia que a liga à Paraguaçu, surgiu lá, timidamente, um restaurante e barzinho, erguido em estruturas de madeira e coberto de sapé, que se tornou o maior ponto de encontro da cidade e região.

Falo do Restaurante do Joia, aquela figura extremamente simpática que atendia a todos com um sorriso no rosto, demonstrando um verdadeiro prazer em servir seus fregueses e que se tornariam seus amigos, pela afabilidade e simpatia.

Com o asfalto ficava fácil dar aquela esticadinha no “Joia” e saborear prazerosamente sua cerveja gelada, seus petiscos e posteriormente seu cardápio inusitado para os amantes da gastronomia. Estudávamos à noite no CENE, e muitas vezes, nos horários de aulas vagas, dávamos aquela escapadinha para beber uma cerveja geladinha lá no “Joia”.

Não lembro exatamente quando foi, mas um dia, estando lá com um primo querido, presenciamos um fato que nos marcou: havia lá um viajante, alguém da capital em passagem pela cidade e que foi conhecer as maravilhas do “Joia”; esse viajante fez uma apresentação de violão que poucos presenciaram, mas quem esteve lá jamais vai se esquecer do primor e perfeccionismo do mesmo. Até o nosso querido Baduzinho, também violonista e que estava lá, tirou o chapéu, homenageando a qualidade daquele músico que se apresentou espontaneamente e sem cobrar cachê, tocando apenas pelo prazer de encantar. Desafio quem presenciou, para enriquecer com dados sobre esse fato e músico maravilhoso.

O galpão de sapé logo foi reconstruído em alvenaria e expandiu-se maravilhosamente, reunindo amigos, famílias e tornando-se referência em toda região, pela qualidade e hospitalidade. Tornou-se um local de comemorações e celebrações, e mesmo depois que me mudei para a capital, toda vez que viajava à terrinha, tinha passagem obrigatória por Conceição e o “Joia”.

Posteriormente fiquei sabendo que nosso ambiente trocou de dono, mas quem viveu aqueles tempos deliciosos do “Joia”, jamais vai esquecer os fatos que estou narrando para quem não teve a felicidade de vivê-los. Sei que nem tudo foi perfeito, que o tempo e as circunstâncias fizeram estragos, mas nada vai apagar a doçura e o encantamento daquele local de amizade e simpatia que muitos de nós vivenciamos.

Ontem, conversando com uma velha amiga também da terrinha, relembrávamos desse episodio em nossas vidas e fui contaminado pela vontade de escrever e narrar as delícias das lembranças que construímos com esses fatos maravilhoso de Conceição do Monte Alegre e do “Joia”. Nos meus loucos devaneios poéticos uma vez escrevi: “Apenas vivemos se lembrados somos…” e espero que nossas lembranças deem vida e acalente os corações daqueles que ficaram esquecidos pelo tempo.

Deixo meu abraço forte a todos que me leram, esperando que logo tenhamos a oportunidade de um encontro real para reavivarmos e reafirmarmos nossa ligação de amor e admiração à terrinha tão querida.

Ludwig Franchon

Desejo ampliar conhecimentos espirituais e compartilhar o que já adquiri na vivência cristã formando novas amizades.

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