Bicicletas de Paraguaçu

Em Paraguaçu, as bicicletas faziam parte das nossas vidas. Ainda cedo, éramos iniciados pelos nossos irmãos mais velhos, a aprender andar nelas.

Lembro que, na minha primeira vez, eu devia ter 5 ou 6 anos, me acomodaram numa Monark sueca, cano baixo, aro 26, acho. Meus irmãos me colocaram nela, na rua que vinha lá da Caixa D’água, na antiga rua 13 de Maio, ou rua Francisco Jacinto da Silva Veado (que nome estranho!), e eu me apavorei. Mal equilibrado nas duas rodas, entrei em pânico sem quase conseguir respirar de medo e pavor. Só vi que o poste se aproximava, e eu atraído por ele com todo o espaço da rua, não conseguia desviar: a colisão foi inevitável, e fiquei traumatizado pelas dores que sofri na colisão e queda e, pior ainda, ter que ouvir as gozações e risos dos meus irmãos mais velhos (Risos).

Passou mais de um ano até que eu vencesse o trauma e o temor e criasse coragem para tentar novamente me equilibrar naquilo que se chama bicicleta. Passei a amar essa magrela que fez parte das nossas vidas, para nos servir e nos deliciar.

Paraguaçu tem desses encantos, e quem não possui uma bicicleta no quintal ou garagem, não é Paraguaçuense de fato. Ela era nossa locomoção, pois a cidade instalada em campos planos e harmoniosos, sem ladeiras e tendo ruas bem definidas, nos proporcionavam viver sobre duas rodas e nos deslocar com o vento airoso nos rostos.

Lembro que, ainda criança, após a missa dominical das 8 ou das 9 lá na Igreja Matriz, eu e meus inesquecíveis amigos, pegávamos nossas bicicletas (bikes é modismo que refuto), e saíamos pelas ruas e estradas que nossas pernas e horizontes permitiam. Íamos até o antigo poço da Petrobrás, onde hoje é as Termas de Paraguaçu e, pelo caminho, comíamos gabirobas, marolos e pitangas tão abundantes nos cerrados e que hoje, infelizmente, foram engolidos pelos canaviais.

Éramos felizes, e nossos valores se resumiam a isso. Recentemente, assistindo filmes retrôs no TCM, vi com alegria e saudosismo que, lá do outro lado do hemisfério, os meninos também se divertiam assim, no filme “Espere por Mim”, com a música tema do John Lennon; sempre  me emociono quando vejo cenas que me remetem à minha infância e juventude em Paraguaçu, e tenho certeza que consigo transmitir este sentimento no que escrevo.

Fui crescendo sem perder jamais meus bons sentimentos, e a bicicleta continuou fazendo parte da minha vida. Estudava no CENE, e lá ia eu de bicicleta; trabalhava na banca de jornal, e lá ia eu de bicicleta; namorava, e lá ia eu de bicicleta. Nos fins de semana, após as obrigações, saíamos por aí em doces passeios, e nosso preferido era o Balneário. Vencer os buracos e areões naquele percurso era um desafio, mas descendo a ladeira tudo era fácil. Lá chegando, encostávamos a magrela em algum lugar e desfrutávamos as delícias que a represa proporcionava.

Voltar para casa exigia algum esforço e pedaladas vigorosas, pois era só subida com as dificuldades nos areões. Lembro que um dia, estava eu com o meu primo querido e, quando olhamos para o horizonte, um temporal estava chegando com o céu negro e ameaçador. Nunca pedalei tanto para chegar em casa antes que a chuva me pegasse pelo caminho.

Era natural andar nas bicicletas e não usávamos capacetes ou adereços para nos locomover. Interessante é que andávamos pelas ruas de Paraguaçu obedecendo aos semáforos e todas as leis de trânsito: jamais nas calçadas e na contramão. Hoje vejo desafios dos ditos “ciclistas”, andando nas calçadas disputando espaço com os pedestres e se julgando com direitos, sem contar que, lá na terrinha querida, não havia furtos e podíamos deixá-las estacionadas no meio fio das ruas, sem qualquer risco.

Tombos inevitáveis aconteciam e, quando chegávamos em casa, nada melhor que sabão e mercúrio para curar os joelhos ralados. Também sabíamos consertar nossas próprias bicicletas: a câmara de ar com frequência furava e mantínhamos um kit ferramental para consertos e reparos; também tínhamos o hábito de lava-las e mantê-las sempre bem lubrificadas. A tristeza maior era a “tripa de mico”, que ficava no bico de injeção de ar das magrelas, antes das válvulas que hoje são utilizadas.

A quantidade de bicicletas em Paraguaçu era tanta que havia na cidade, pelo menos 2 bicicletarias: o Levy filho da amada Dona Cota, e o Oswaldo Büchler, me corrijam se escrevi errado; eles mantinham à disposição dos ciclistas, compressores de ar, para que calibrássemos os pneus gratuitamente.

Bem, quando vim para São Paulo achei que podia andar com uma bicicleta, mas logo desisti. Aqui tudo é perigoso, e não me arrisquei. Tentei embutir na educação dos meus filhos a maravilha que vivi, mas logo também senti que era perigoso e não havia a segurança como nas ruas de Paraguaçu.

Fica aqui meu abraço forte e fraterno a todos os que me leram.

Ludwig Franchon

Desejo ampliar conhecimentos espirituais e compartilhar o que já adquiri na vivência cristã formando novas amizades.

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