Minha querida Paraguaçu

Dizem que, quando a semente é lançada em solo fértil ela germina, se enraíza e cria laços fortes surgindo um bom tronco, expandindo-se e produzindo bons frutos ou sombra acolhedora para o descanso dos viajantes.
Foi assim comigo: nasci nesta cidade tão adorável e vim aqui homenagea-la quando ela comemora seu aniversário. Por coincidência, Paraguaçu tem a mesma idade da minha querida mãe, que neste ano também estaria fazendo 92 anos; difícil esquecer! Em tempo: dia 12 de março também seria o aniversário do meu querido avô Humberto Barbieri.
As minhas lembranças mais doces, desta terrinha tão querida por todos, estão nos sons. Sim meus queridos amigos que me leem, nos sons; eu explico: ainda criança acordávamos de madrugada com o sino da carroça do padeiro distribuindo pães, bem debaixo das nossas janelas, era um som inconfundível que se misturava nos sonhos e alimentava, antes do corpo, a alma.
Acordávamos sonolentos para as obrigações do dia, e ainda bem cedo ouvíamos o apito das fábricas chamando seus operários para a labuta e lembrando também do horário em que tínhamos que nos aprontar para a escola. Lembro muito bem, que em Paraguaçu tinha três máquinas que processavam óleo vegetal: a Anderson Clayton, a Sanbra e a Saad, todas ao longo do traçado da Estrada de Ferro Sorocabana, que funcionavam a todo vapor com a farta produção de algodão e amendoim da agricultura local. Posteriormente, a maior de todas e que sobreviveu, revertendo suas máquinas para processar a soja, mas isso é apenas uma colocação minha para ilustrar a importância desta cidade para a região; não pesquisei.
Além das máquinas de óleo havia também serrarias, máquinas de beneficiar café e arroz, sempre com muita atividade. Aprendíamos na escola que Paraguaçu tinha uma grande diversidade na produção agrícola, e nos orgulhávamos disso. Também presenciei, quando criança, escala de voos da Vasp em Paraguaçu: toda vez que ouvíamos o ronco dos DC-3, saíamos correndo ao “Campo de Aviação”, para ver aquele “gigante” prateado e ganhar balinhas das aeromoças; os mais velhos vão se lembrar disso! Inesquecível também o ronco dos teco-tecos do aeroclube, sobrevoando a cidade e formando pilotos amadores.
Ainda sobre a Estrada de Ferro Sorocabana, impossível esquecer os apitos das máquinas se aproximando das passagens de nível ou da estação e, também nas noites insones, escutar o seu suave resfolegar, desde a aproximação vinda de Cardoso de Almeida, contornando toda a colina, até quase no distrito de Sapezal.
Os sons se estendiam pelo dia: após o padeiro, vinha o leiteiro e também o carro de som, sempre do Manézinho, fazendo propaganda do comércio local. Os apitos das fábricas ou das serrarias nos avisavam do horário do almoço, recomeço no período da tarde e fim do expediente à tardinha, e o povo se movia vagarosamente pelas ruas da cidade, a pé ou nas deliciosas bicicletas; não havia transporte coletivo.
Também não posso esquecer-me das comemorações religiosas na Igreja Matriz: as missas cantadas e as fervorosas procissões da Semana Santa pelas ruas da cidade, também sempre cantadas e seguidas por centenas de fiéis contritos no sacrifício do Cristo.
No rádio ouvíamos a gloriosa Marconi com a sua programação local, que nos entretia em nossos lazeres. Minha mãe costurava, e o rádio dela estava sempre sintonizado na Rádio Aparecida para seguir as missas e celebrações, mas também ouvia as famosas novelas radiofônicas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Mas o meu propósito é homenagear a cidade e seu aniversário, e me lembro muito bem, como se iniciava o dia 12 de março: acordávamos logo cedo com o estouro dos rojões de vara, ecoando por toda a cidade para anunciar que aquele era um dia de festa.
Havia as famosas matinadas com a Banda de Música, sempre sob a regência do Maestro Roque Soares de Almeida, enriquecendo a data e educando nossos ouvidos para a boa música.
Em algumas datas havia desfiles para a comemoração, e assistíamos na Av. Paraguaçu pela ordem, a Banda de Música, o Tiro de Guerra com os recém-meninos se formando homens, todos de verde parecendo pés de couve, mas cheios de civilidade e amor à Pátria. Logo vinham as escolas com suas fanfarras e adereços.
E como já foi escrito por mim, os sons se eternizaram: o Cine São Manoel e o Summer Place, a Praça da Matriz com o seu coreto e suas retretas, e também o sistema de auto falantes que havia na praça, onde ouvíamos belíssimas canzones italianas com dedicações às amadas. Havia também o footing na Av. Paraguaçu e a encantadora Fonte Luminosa com suas águas coloridas dançando ao som das valsas vienenses. Também impossível esquecer os Bailes no PTC ou na ACEPP, as brincadeiras dançantes ao som dos vinis, em que eu prazerosamente animava com minha vitrola.
Paraguaçu, cidade amada! Toda vez que vou aí passear me emociono caminhando pelas ruas já percorridas na minha infância e juventude. Vou relembrando os eventos, casos e pessoas que cruzaram o meu caminho e procurando identificar nos locais, as lembranças mais doces que vivenciei, tentando reconhecer alguém, ou apenas respirando o ar que durante muitos anos me formou para a vida e me fortaleceu para os desafios na cidade grande.
Parabéns Paraguaçu! Que esta cidade continue acolhendo com amor, todos que aí aportarem, e torço para que eles também criem os deliciosos laços que criei, formando o caráter, civilidade e amor fraterno entre todos.
Luiz Antonio Franchon – 12 de março de 2016.

Sobre Ludwig Franchon

Desejo ampliar conhecimentos espirituais e compartilhar o que já adquiri na vivência cristã formando novas amizades.

Ludwig Franchon

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