Meu fusca azul

Quando eu tinha meus 10 anos, tenra idade, de brincar nas ruas, rios, fazer coisas de criança, éramos frequentemente compelidos à ir nas roças de algodão e amendoim, sempre nos verões, pra ajudar nas despesas de casa. Mesmo com tão pouca idade, não era difícil ver famílias inteiras subindo em caminhões de “bóias-frias” nas madrugadas pra buscar seu sustento. Mesmo sem a responsabilidade de produzir alguma coisa, estávamos quase a família toda nas carrocerias dos caminhões, andando até 80 km até chegar nas lavouras de algodão, enfrentando o frio, e muitas vezes, a chuva que castigava.
Algo que ficou marcado, foi numa ocasião, em que passei em frente a uma mercearia, vi um fusquinha azul, de plástico, e sonhei em comprar aquele brinquedo tão valioso, e não via a hora de pegar um dinheirinho pra realizar aquele sonho.
Lembro-me como se fosse hoje, fomos pro ponto do caminhão, pra ir à roça, o motorista não chegou, e eu, com o dinheiro no bolso, pra quando voltasse da colheita, comprar o tão sonhado carrinho de plástico. Como não pudemos ir ao trabalho, minha mãe disse que era pra ir pra escola, lógico que me neguei a ir, pois, pra ir na roça poderia faltar, então, também não ia pra escola, mas isso era mais um pretexto pra correr no mercado e comprar o carro dos meus sonhos, mal cheguei em casa, já fui brincar com aquele, que era meu sonho de consumo, naquele dia.
Aquilo ficou marcado na minha memória, não como algo ruim, mas a reflexão de que a criança sente a necessidade de ser criança, mesmo sabendo que precisa ajudar seus familiares com o sacrifício da sua doce infância.

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