Relato de um sobrevivente de Auchwitz

Aqueles homens tinham batido no fundo mais fundo da condição humana, pois nada de nada era já seu: sem roupa, sem cabelo, sem nome, ficariam presos à vida por um simples número de prisioneiro gravado na pele.
Ao fim de algumas semanas de internamento, aqueles homens aprenderam rapidamente as leis da sobrevivência.
Aprenderam a não fazer perguntas e a mostrarconstantemente uma máscara de compreensão; aprenderam a dar valor à alimentação, rapando cuidadosamente o fundo das tigelas; aprenderam que tudo tem uma utilidade: o arame, para atar os sapatos; o papel, para forrarem os casacos contra o frio; os trapos para as ligaduras nos pés.
Os rituais a cumprir eram intermináveis: todas as manhãs era preciso catar o colchão dos percevejos, dar lustro aos sapatos com óleo de máquina, tirar as nódoas da roupa; à noite, era preciso lavar os pés e catar os piolhos; ao sábado, deviam fazer a barba, cortar o cabelo e remendar os andrajos; ao domingo, tinham que submeter-se à pesquisa da sarna e à fiscalização dos botões do casaco ( era preciso ter cinco).
Quando as unhas cresciam, tinham que as roer; se iam às sanitas ou aos lavabos eram obrigados a levar quanto possuíam, caso contrário seriam imediatamente roubados.
A morte começava pelos sapatos.
Ao cabo de várias horas de marcha , os sapatos provocavam chagas dolorosas que, infalivelmente, infectavam. Aquele que estava ferido nos pés tinha de avançar como se arrastasse correntes; chegava a toda a parte em último lugar e era constantemente agredido.
Todos trabalhavam, com excepção dos doentes. Todas as manhãs saíam do campo em direcção a uma fábrica de borracha, donde saíam antes do anoitecer a fim de evitar as evasões.
Todos os dias, segundo um ritmo pré-estabelecido, sair e entrar, trabalhar, dormir e comer, cair doente, curar-se ou morrer.
Agora é tempo de falar dos outros, dos que serviram de cobaias aos médicos das SS, que utilizavam em experiências nas suas enfermarias: congelação, castração, inoculação de tifo.
E dos velhos, doentes, mulheres e crianças que simplesmente foram engolidos pela noite.
E ninguém lhes disse adeus. Levados para as câmaras de gás, eram cruelmente assassinados.
À entrada, lia-se uma palavra tranquilizadora:
“Banhos”.
Os que entravam, despiam-se, pensando tratar-se de uma operação de desinfecção, acabando, afinal, por se encontrarem com a morte…

[Nota]
Estima-se que na Europa de Hitler, existiam em torno de 1500 campos e sub-campos de concentração e extermínio, que eliminaram aproximadamente 4 milhões de judeus nesses centros de trabalho escravo e extermínio, além de outras minorias, como negros, doentes, ciganos etc

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