Heinz Herald Werner – 1935 – 1941

Quem não me conheceu, meu nome é Heiz Herald Werner, nasci numa época muito feliz, no interior da Alemanha, um país que sofria com problemas econômicos e sociais, e não era difícil ver um grupo de pessoas com roupas pretas maltratando pessoas nas ruas.
Minha família tinha uma tradicional loja no centro de Nuremberg, meu pai, um Austríaco, descendente de judeus, fez sua vida como sapateiro, logo em seguida, abriu várias lojas em algumas cidades no país, nos dando um certo padrão de vida, gerando descontentamentos com nossos vizinhos, pois, com a crise econômica que o país passava, achavam que estávamos roubando a riqueza deles.
Não entendia o porquê de tanto ódio contra nossa família, pois tudo conseguimos com muito trabalho, e não era raro, escreverem palavras desagradáveis na loja do meu pai. Em 1941, eu tinha seis anos, não sei bem o motivo, meu pai chegou em casa correndo, chamou minha mãe, e fez
juntar tudo que tínhamos, pra ir embora, pois o governo da roupa preta, como eles chamavam, iriam nos levar pra trabalhar em outro lugar. Eu pensava que iam dar um emprego a ele, e uma nova escola pra mim, e uma casa pra minha mãe. Meu pai disse que iríamos pra bem longe, e não sabia bem o lugar, mas era pra irmos, sem levar nada além de roupas. Eu tentei pegar alguns
brinquedos, mas não pude, pois não era permitido levar brinquedos onde iríamos, peguei somente uma coleção de figurinhas que havia juntado com alguns poucos amiguinhos que fiz entre os vizinhos.
A ordem, era pra ficarmos na rua, esperando o ônibus pegar a gente, coisa que não demorou muito, mas aquilo me colocava medo, pois era um caminhão todo fechado, e as pessoas que estavam nele usavam as roupas pretas e armas nas mãos, e tratavam a todos com muita brutalidade, acho que era porque tinham pressa em nos levar para o trabalho.
Fiquei com muito medo, segurei bem forte a mão do meu pais, percebi que ele tremia muito, o que me deixou com mais medo ainda, foi nesse momento que me dei conta que minha mãe não estava mais conosco, pois eram muitas pessoas sendo empurradas por aquelas ruas estreitas do nosso bairro.
Quando chegou nossa vez de entrar no caminhão, um homem, vestido todo de preto, mandou meu pai subir no caminhão, enquanto outro me segurava, e me empurrava pra um canto, onde outras crianças choravam. Até aquele momento, não entendia o que estava acontecendo, mas pelo desespero dos pais ao subirem no caminhão, imaginava que não iria gostar do que poderia acontecer, e se poderia vê-lo novamente, pois não sabia onde estava minha mãe, com aquela bagunça toda, ela se perdeu no meio da multidão.
Com todo aquele tumulto, muitos chorando, pude perceber que os homens que faziam aquilo, traziam na gola da camisa, um símbolo parecendo dois raios, que posteriormente, descobri serem dois “S”. Alguns traziam medalhas no peito, muito bonitas, e alguns mais velhos, tinham uma cruz de ferro, ficavam ao longe olhando, e de vez em quando, davam ordens a alguns dos que empurravam a multidão em direção aos caminhões.
Enquanto olhava a bota reluzente de um desses homens de preto, ouvi um barulho muito alto perto de mim, quando olhei, a uma distância de vinte metros, uma mulher chorando, agonizava com seu filho no colo, e outro homem de preto, com uma arma na mão, e muito sangue saindo daquela mulher. Aquilo me deixou com medo de tudo que estava acontecendo, e, não passou muito tempo, um caminhão veio onde estavam as crianças, e nos fizeram subir nele, bateram muito na gente, mas não me machuquei, pois estava no meio das crianças, quase todas na mesma idade, e todas traziam uma estrela de Davi, que nunca soube pra que servia.
Aquele caminhão nos levou à estação de trem, e nos colocaram em vagões totalmente fechados, sem água, comida ou nada que nos desse conforto. Tinha muita criança, e, eu, chorando, pedia pra me levarem ao meu pai, mas ninguém me ouvia com aquele barulho todo. Aos poucos, o trem saiu da
estação, e, naquele lugar frio e abafado, passamos muitas horas, muitas crianças caídas no chão, doentes, até um que não tinha uma perna estava alí, caído junto a outro dormindo. Aquela situação estava muito ruim, não sei quantas crianças tinha lá, mas não dava pra sentar, senão aquela multidão pisava na gente, eu via muitos fazendo suas necessidades em pé, nas roupas,
pois passamos vários dias naquela situação, e em nenhum momento, nos deram sequer um copo de água.
Depois de três dias, chegamos num lugar, foi aí que ví luz novamente, foi quando percebi que tinha umas trinta crianças mortas, mas não dava pra perceber, pelo caos daquele lugar, o mau cheiro que impregnava meu nariz, não me deixava distinguir o que estava sentindo.
Quando abriram aquelas portas de madeira, foi que me dei conta da gravidade da situação, alguns soldados de verde, muito bravos, pediam pressa pra sairmos daquele vagão, quando consegui sair, olhei ao meu redor, vi muita gente suja, algumas chorando e muita gente doente, sentada no chão, acho que não conseguiam andar, pela fome que passou durante a viagem. Olhei para o final do trem, percebi que eram muitos vagões, deveriam ter uns trinta, todos de madeira, mas nenhum tinha janela, parecia algo pra transportar vacas. Quando descemos do trem, nos fizeram ficar em frente aos soldados, e alguns homens de preto, que percebi serem chefes daquele lugar, perguntaram aos adultos quem tinha profissão. Quem respondia que sim, dava um passo a frente, e os outros, ficavam no mesmo lugar. Depois disso, os que deram um passo a frente, foram pra um lugar, e o restante foi pra outro, e eu fui junto. Passamos por um corredor de arame farpado, com vários soldados armados nos acompanhando.
Me colocaram em um barracão com todas as crianças naquele lugar, já tinham outras pessoas ali, muitas deitadas, alguns nem se mexiam, mas percebi que quase todos estavam muito magros. Quando parei em um canto, vi dois homens, com roupas brancas listradas de azul, assim como todos que estavam lá, carregando um corpo esquelético pra fora, deduzi que estava morto ha muito tempo.
O tempo passou, me deram roupa listrada, como todo mundo fiquei por três meses, e, nesse tempo, lembro de ter comido algumas batatas que me trouxeram, passei muita fome, e hoje, estou aqui, jogado nesse canto, esperando alguém me ajudar. Não sei pra onde levaram meu pai, minha mãe não tive notícias desde aquele dia triste que saímos da nossa casa de madeira no centro de Nuremberg. Não sei por quanto tempo aguentarei ficar aqui, mas não tenho mais esperança de sair daqui com vida, talvez esse seja meu fim, como todos que entram nesse lugar, e saem carregados. Alguns dizem que quem morre, eles jogam no “buracão”, nunca vi esse lugar, mas sei que quem vai pra lá nunca volta, e começo a pensar que meu pai e minha mãe tenham ido pra lá. Eu queria que os soldados que batem e matam a gente nesse lugar, sentissem um pouco de pena da gente, e nos deixassem ir embora pra casa, não fazemos mal a ninguém, apenas queria voltar pra casa e dormir na minha cama quente e brincar com meus brinquedos.

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